Enilda Mendonça é trabalhadora em educação e atua como professora na rede pública municipal e estadual em Ilhéus – BA. Além disso, é diretora do APPI (Delegacia Sindical Costa do Cacau da APPI – Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia). Apesar de todas a atribuições Enilda ainda atua há dois anos como monitora do Projeto VidaViva. Nesta entrevista ela fala sobre os sucessos, as dificuldades e os desafios de implementar o projeto na base.
Como foi desenvolvido o projeto com os trabalhadores de sua categoria?
Nós fizemos a aplicação do mapping em três escolas. A gente decidiu fazer por escola porque a gente vai discutir aquele local de trabalho, então a gente não chama várias escolas para vir porque cada escola tem a sua realidade. Como a gente trabalha no serviço público, com prédios muito deficientes (na rede municipal, por exemplo, a maioria das escolas são casas, prédios ou associação de igrejas alugadas) cada um é muito característico. Então entendemos que era melhor não unir, e trabalhar por escola.
A gente fez a aplicação durante a jornada de trabalho. Numa escola, nós tivemos professores substituindo outros professores pra gente fazer a aplicação da metodologia e numa outra a gente conseguiu negociar os dias de planejamento – quando a escola não ia funcionar – e a gente trabalhou com o mapping. A gente pegou desde a copeira até a diretora de escola, todo mundo participou. Diferenciamos a categoria pelas cores do trabalho no mapa do corpo, cada categoria tem sua cor. Isso facilita depois para ter noção de quantidade de lesões e dores que cada grupo sente.
Quanto tempo vocês levaram para desenvolver esta atividade?
Nós usamos quatro horas. Fizemos todas as etapas do mapping: mapa do corpo, mapa do trabalho, nosso mundo e o plano de ação. Conseguimos fazer tudo, conseguimos alguns avanços. O importante no mapping é conseguir uma conscientização de coletividade, e quando a gente consegue isso a gente dá um grande passo. O trabalhador consegue se ver enquanto grupo, percebe que o problema não é exclusivo dele, é coletivo, portanto ele não é o culpado por estar sentido aquela dor. Acho que isso é um ponto importante.
Quais resultados vocês alcançaram com a implementação do Mapping?
No plano de ação a gente tem conseguido implementar algumas mudanças. Por exemplo, a gente conseguiu negociar a redução de quatro alunos por sala numa das escolas porque o espaço era muito pequeno. Nós temos um espaço, por exemplo, de 12 metros quadrados com 20 crianças em fase de alfabetização, com cinco anos de idade, mais o professor, ou seja, 21 pessoas num espaço de 12 metros quadrados, é praticamente impossível trabalhar. Por isso foi importante conseguir a redução de quatro crianças a partir do próximo ano.
O que foi encaminhado a partir do plano de ação?
No plano de ação nós colocamos a solicitação de audiência na Secretaria Municipal de educação. Consgeuimos a audiência e apresentamos nosso trabalho. Conseguimos negociar nessa mesma escola a troca dos quadros negros e uma dessas salas será desativada a partir do ano que vem por falta de condições de funcionar como sala de aula. Conseguimos também negociar toldos – que serão licitados no próximo período – para evitar o excesso de calor, frio e chuva no local. E agora estamos na fase das cobranças...
Na segunda escola em que aplicamos o mapping o banheiro fica ao lado da cozinha e das salas de aula – e vive entupido. Nós conseguimos negociar para o final do ano a desativação desse banheiro e eles vão construir um banheiro externo. Estamos muito felizes por causa dessas conquistas. O importante do mapping é que todos se sentem responsáveis para resolver o problema, porque a gente tem mania de dizer “o problema é esse, mas quem vai resolver? É o outro que vai resolver”. Então com o mapping a gente tem uma construção coletiva.
Então, essas coisas foram aparecendo a partir do mapping. São coisas que podem parecer pequenas para quem olha de fora, mas pra gente não é, pelo contrário, pra gente é um fato inédito estarmos conseguindo fazer intervenção no local de trabalho.
Como os trabalhadores reagiram ao trabalho que vocês estão realizando com o projeto?
Inicialmente os professores ficam meio desconfiados porque eles estavam acostumados com a visita do sindicato para dar um aviso, fazer uma convocação, mas não passar quatro horas dentro da escola. Nenhum sindicato faz isso. Só se estiver em campanha salarial, mobilização. Então, o sindicato solicitar um espaço de quatro horas... O professor fica assim: só pode ser “bomba” – ele pensa. Aí quando a gente começa a aplicar os mapas – pra mim, o mapa do corpo ele é a porta de entrada – então é a partir desse instrumento que você consegue sensibilizar pra outros instrumentos. Então eles vão se identificando, no começo vão achando que é uma brincadeira, então começam a falar, dar risada, mas quando a gente puxa para a intervenção, para discussão do que representa cada bolinha daquela, é como se a ficha fosse caindo – eles vão percebendo que a discussão é muito mais ampla.
No mapa do Nosso Mundo, por exemplo, nós temos depoimentos fantásticos. Quando finalmente cai a ficha, a pessoa vê que ela já tem dez anos, vinte anos de trabalho e que só foi trabalho e mais nada. Além disso elas percebem que estão doentes hoje ou correm o risco de ficar doente e não conseguiram ter uma vida com qualidade, não conseguiram fazer a tríade Vida-Saúde-trabalho. Então eu acho que é muito importante quando a gente chega no plano de ação e a gente consegue executá-lo e acaba em resultados concretos.
Por mais que a gente faça um trabalho na área de saúde ou qualquer outra área, os professores sempre encaram o sindicato como aquele que vai resolver o problema salarial. Infelizmente, a gente se acaba mas as pessoas só vêem isso. Então quando a gente puxa essa discussão dentro do local de trabalho, as pessoas percebem que sindicato não é só isso. Eu fiquei até emocionada quando uma professora nos agradeceu após o plano de ação por nós termos ido fazer um resgate da conscientização, puxar neles a conscientização, “nos trazer de volta à consciência enquanto ser humano”, ela disse.
Quais as principais dificuldades que vocês enfrentaram com o plano de ações?
O que a gente precisa ter muito cuidado, na hora de levantar o plano de ação, é de entender o que é o problema e qual é a causa, porque às vezes é muito confuso: a gente acha que o problema é aquele, mas aquilo é a causa. Então acha que se resolver aquilo a gente resolve o problema e não é assim. É preciso distinguir bem o que é o problema e o que está causando esse problema. Eu acho que às vezes é uma questão de significação, é natural a gente confundir isso e fazer tudo em quatro horas é muito corrido. Pra mim, essa é a maior dificuldade. Se nós como professores entendemos isso como dificuldade, que estamos acostumadas a fazer planejamento, como será que as outras categorias enfrentam isso?
Quais as dificuldades enfrentadas na hora de negociar mudanças no local de trabalho?
Na Secretaria de Educação ficaram espantados. De repente o sindicato pediu uma audiência e eles acharam que era para discutir outra coisa e nós fomos apresentar essa discussão. Eles também acham que a gente só briga por dinheiro, tem esse detalhe. Outras vezes eles acham que sindicalista é preguiçoso, não faz nada. É um preconceito. Então nós colocamos a situação, eles tentaram inicialmente argumentar que não havia essa situação e nós abrimos nosso relatório, mostramos fotos do local, falamos do trabalho, do objetivo do trabalho que estamos fazendo e aí conseguimos fazer essas negociações. Na realidade a gente está aprendendo a caminhar caminhando.
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